CAPÍTULO 3: CONSELHOS VAZIOS
A dor profunda é uma ilha. Por mais que outros tentem construir pontes com palavras de conforto, o abismo que separa o ferido do mundo permanece intransponível. Para
Napopodopopo, cada tentativa de consolo era como um barulho distante, um eco distorcido que não conseguia penetrar a espessa redoma de sua agonia.
As primeiras pontes a serem construídas foram as de seus amigos. Eles vieram até a beira do seu mar interior, olhando para ele boiar naquela apatia agonizante.
Zito, o mais pragmático deles, falou primeiro, a voz tentando imitar uma racionalidade que não combinava com a situação.
— Napo, meu irmão, levanta a cabeça. Nem tudo o que pretendemos obtemos. E sabes de uma coisa? Nem tudo o que obtemos é porque queremos. A vida é assim. Ela não era a única mulher no mundo. Há mais peixes no oceano.
A metáfora, involuntariamente cruel, ecoou de forma grotesca no mar de corpos onde
Napopodopopo se afogava. Ele ouviu as palavras, mas seu significado se perdeu. Soaram como sílabas ocas, “peixes”, “oceano”, “mulher”, batendo contra ele como seixos rolados, sem ferir, mas também sem confortar. Ele nem mesmo piscou. Seus olhos, escancarados por trás das lentes imaginárias de seus óculos escuros, fitavam o nada. Zito suspirou, bateu-lhe levemente no ombro e foi embora, a frustração estampada no rosto. Sua ponte desmoronara antes de ser terminada.
Joaquim, mais sentimental, tentou uma abordagem diferente. Sentou-se na areia, próximo à água, como se falar de lá tornasse a comunicação mais fácil.
— Lembras-te da Carla, Napo? Aquela da escola que me partiu o coração? Chorei uma semana. Pensei que não ia sobreviver. Olha para mim agora. Casei, tenho dois filhos. A dor passa, meu amigo. É como uma chuva forte: molha, assusta, mas sempre passa e o sol volta a brilhar.
Napopodopopo ouviu a história. Ouviu as palavras “dor” e “coração”. Elas se conectaram brevemente com algo dentro dele, mas a conexão foi instantaneamente sobrecarregada pela voz cortante dela: –“Não te vejo como homem.” A dor de Joaquim parecia-lhe um arranhão perto do seu abismo aberto. A chuva da qual ele falava era um temporal diferente, um maremoto que não dava tréguas e não prometia sol. Ele virou o rosto para longe, boiando de costas para o amigo. A ponte de Joaquim foi levada pela correnteza do seu desespero.
Mas a tentativa mais dolorosa, porque carregada de um amor puro e impotente, veio de sua mãe. Ela não veio até a beira do mar; ela entrou na água. Meteu-se nas ondas geladas da sua depressão, sem medo de se molhar, e tentou agarrá-lo.
Com voz mansa, mas firme, carregada da sabedoria das gerações que a precederam, ela sussurrou-lhe perto do ouvido:
— Filho, escuta a tua mãe. Afasta-te daqueles que te humilham. O amor não pode ser uma
via de um só lado. Tem de ser recíproco. Olha para mim. Hoje és tu, amanhã será ela, e depois de amanhã, mais um. A vida é uma roda que não para de girar.
Suas mãos trêmulas, calejadas por uma vida de trabalho, acariciaram seu rosto molhado.
Seu toque era real, sólido, um ponto de ancoragem no universo líquido e instável em que ele vivia. Por um brevíssimo instante, o calor daquelas mãos pareceu penetrar o frio que o envolvia.
Ele sentiu um aroma fugaz de caril e terra molhada, o cheiro do seu quintal, da sua infância, de um tempo antes da dor.
Mas era uma âncora frágil. A voz dela, por mais que falasse verdades universais, não conseguia calar a voz interna que o atormentava. –“Não te vejo como homem.” A frase era um murro no estômago, anulando qualquer conforto. A “roda da vida” de que ela falava parecia ter passado por cima dele e seguido adiante, deixando-o esmagado para trás.
Ele afastou-se do toque dela, um movimento lento e pesado, como se seu corpo fosse feito de chumbo.
— Mãe… deixa-me – saiu-lhe um sussurro rouco, a primeira coisa que dizia em dias.
A expressão dela foi de dor. Não de raiva, mas de uma profunda tristeza por testemunhar o sofrimento do filho e ser incapaz de aliviá-lo. Ela recuou, saiu da água, e ficou na areia a observá-lo, seus olhos velhos e sábios brilhando com lágrimas não derramadas. A sua ponte, feita de amor incondicional, permanecia de pé, mas levava a um lugar onde ele já não conseguia ou não queria ir.
Sozinho novamente, Napopodopopo percebeu o mais aterrador: o som das vozes dos outros tinha-se transformado. Já não eram palavras de consolo. Eram apenas… barulho. Um ruído de fundo, inesperado e irritante, que turvava ainda mais as águas turbulentas do seu coração. Até o amor da sua mãe soava como interferência, estática a atrapalhar a frequência clara e cortante da sua dor.
Ele estava agora completamente só, num oceano de sua própria criação, onde o único som que fazia sentido era o do seu próprio sofrimento. E era a esse som que ele escolheu escutar, boiando em direção ao centro do redemoinho.
