A História do Napopodopopo - Capítulo 1: O Náufrago dos Sonhos

escritor.saraiva
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 CAPÍTULO 1: O MERCADO DAS ILUSÕES

O sol de Mocuba incidia com uma força brutal, mas ninguém parecia importar-se. O
mercado central fervilhava de vida, uma cacofonia alegre de vozes, moto-táxis a bufar, galinhas a cacarejar e o aroma entrelaçado de poeira, manga madura e caril. Para Napopodopopo, naquele dia, era o centro do universo.
Ele estava parado, quase enraizado, perto das bancas de capulanas coloridas que ondulavam suvente na brisa quente. Os seus óculos escuros tentavam, em vão, disfarçar a direção fixa do seu
olhar. E ela estava lá.
Vilowa.
Não era a mais bonita do mercado, talvez. Mas havia uma luz nela, uma graça infinita no modo como equilibrava um cesto de vime na cabeça, conversando e rindo com as outras
mulheres. O seu riso—claro, despreocupado—cortava o barulho do mercado e chegava até ele como uma melodia perfeita. Para Napopodopopo, naquele instante, o mundo reduziu-se àquele pequeno círculo de poeira dourada onde ela estava.
Há duas semanas que ele a observava. Dois domingos seguidos, ele percorrera os mesmos corredores de terra batida, na esperança de um olhar, um sinal. Hoje, porém, estava diferente.
Hoje, ele trazia na mão direita, escondido no bolso das calças, um pequeno embrulho. Dentro,uma corrente de prata—simples, mas na qual ele economizaram meticulosamente durante meses.
Era agora ou nunca. O coração batia-lhe tão forte que ele temia que todos à volta ouvissem. As palmas das mãos estavam suadas. Com um esforço sobre-humano, deu o primeiro passo, depois outro, aproximando-se como se movesse num campo minado.
 — Boa tarde — a voz saiu-lhe mais rouca e baixa do que pretendia.
Ela virou-se, e os seus olhos escuros encontraram os céus, por trás dos óculos. Um sorriso polido, educado, mas distante, apareceu no seu rosto.
 — Boa tarde.
 — Eu… — ele engasgou-se, a coragem a esvair-se-lhe como água por entre os dedos. — Eu vi-te aqui outras vezes. E… comprei isto para ti.

Estendeu o embrulho, a mão a tremer ligeiramente. Ela arqueou uma sobrancelha, divertida, mas não impressionada. Pegou no embrulho com os dedos longos e delicados, desfazendo-o sem pressa.

O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Ela observou a corrente de prata, virando-a sob a luz do sol, avaliando-a não com avareza, mas com uma frieza clínica que gelou o sangue nas veias de Napopodopopo.

— Oh — disse ela, por fim. — É… meigo da tua parte.

A palavra “meigo” não soou como um elogio. Soou a condenação.

 — É um símbolo — gaguejou ele, o rosto a arder. — Do que eu sinto por ti.

Ela deixou escapar uma risadinha curta, não de felicidade, mas de incredulidade.

 — Olha, Napo, é simpático, a sério. Mas eu não preciso de símbolos. Preciso de ações. De um homem de verdade.

Estendeu-lhe de volta a corrente. O toque dos seus dedos contra a palma da sua mão foi rápido e gelado.

 — Já tenho alguém — acrescentou, o sorriso agora claramente condescendente. —

Alguém… melhor. Compreendes, não compreendes?

Ele não compreendeu. O mundo desfocou-se à sua volta. O barulho do mercado transformou-se num zumbido abafado. Ele só via os lábios dela a moverem-se, a pronunciarem a sentença final:

 — Moço, faz um favor a ti mesmo. Procura outra. Não te vejo como homem.

Napopodopopo não se lembra de ter saído do mercado. Não se lembra da longa caminhada para casa. A única coisa de que tinha certeza era o peso morto da corrente de prata na sua mão fechada e o eco ensurdecedor daquela frase, já a escavar-lhe um buraco no peito.

 — Não te vejo como homem.

Na solidão do seu quarto, pela primeira vez, sentiu o mar a nascer dentro de si. Não um mar de água, mas um mar de sal e escuridão, pronto para engulfir tudo o que ele outrora fora. O naufrágio começara.


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