CAPÍTULO 2: A VOZ QUE CORTA
Dentro da mente de Napopodopopo, não havia silêncio. Havia um coro de demónios, todos sussurrando com a voz dela.
Era uma tortura perfeitamente orquestrada. As palavras não vinham como memórias completas, mas como fragmentos afiados, lascas de um espelho quebrado que giravam sem cessar, cada uma refletindo um momento diferente da sua humilhação. Elas cortavam, retalhavam, faziam sangrar por dentro.
— Não te vejo como homem.
Essa era a pior de todas. Ela não ecoava como as outras; ela habitava-o. Tornara-se uma verdade absoluta e cruel que estruturava toda a sua existência naquele mar. Cada vez que a onda mental dessa frase batia, ele sentia o corpo ficar mais pesado, como se estivesse vestindo um casaco de pedras. A masculinidade dele, outrora uma certeza tranquila, agora era uma questão aberta, uma ferida que o sal do mar não deixava cicatrizar.
Outras vozes se juntavam ao coro, uma cacofonia de desdém:
— És tão previsível, Napo. (Ninguém mais o chamava assim. Era um nome que pertencia a um outro homem, de um outro tempo).
— Acha que comprar pulseiras e cervejas é suficiente? Preciso de um homem, não de um menino. Já tenho alguém. Alguém melhor.
“Alguém melhor”. Essa frase trazia consigo uma avalanche de imagens não vistas, mas vividamente imaginadas. Napopodopopo via um homem nebuloso, mais alto, mais confiante, com as mãos certas e as palavras precisas. Um homem que não era ele. A dor da rejeição era amplificada pelo ódio por esse fantasma, esse rival invisível que lhe roubara não só a mulher, mas a sua própria identidade.
Os sons do mar físico fundiam-se com o mar mental. O murmúrio das ondas era o murmúrio das vozes. O assobio do vento era o som do seu próprio desespero a tentar escapar. Ele já não sabia onde terminava o seu corpo e onde começava a água salgada da sua angústia. Tudo era um único tecido de dor.
Num momento de rara clareza, uma memória mais longa conseguiu furar a bolha do seu tormento.
Ela estava parada à frente da loja de tecidos, a luz do fim de tarde dourando a sua pele. Ele aproximou-se, o coração a bater como um tambor de guerra. Nas mãos, trazia um embrulho pequeno — uma pequena corrente de prata que economizara durante meses para comprar.
— É para ti — disse ele, a voz um fio de ansiedade. — Um símbolo… do que sinto.
Ela pegou no embrulho, os dedos delicados a abri-lo sem pressa. Olhou para a corrente, não para ele. Um silêncio pesou no ar. Depois, um sorriso pequeno, não de felicidade, mas de pena, curvou os seus lábios.
— Oh, Napo. És tão… meigo. — A palavra não soou como um elogio. Soou a condenação.
— Mas não preciso de símbolos. Preciso de ações. De um homem de verdade.
Entregou-lhe o embrulho de volta. O toque dos seus dedos foi rápido e frio. A corrente caiu na palma da sua mão, um objeto morto, sem valor. Naquele momento, ele não sentiu a rejeição.
Ainda. Senti-o primeiro um vácuo, um espaço vazio onde a esperança estivera segundos antes. A dor só veio depois, como a maré, lenta e implacável.
A memória dissolveu-se, deixando-o mais exausto do que antes. A corrente, na memória, transformou-se num peso que o puxava para baixo, no mar real. Ele lutou contra o afundamento, os braços movendo-se lentamente, com um esforço sobre-humano.
Era isso que as vozes faziam. Elas não o queriam morto, não ainda. Queriam-no vivo, para sentir cada corte, cada camada de dor ser removida lentamente. A humilhação era um animal vivo dentro dele, a roer-lhe as entranhas.
Ele abriu a boca para gritar, mas só saiu ar. Ar e um ruído rouco, de garganta rasgada pela salinidade e pelo desuso. O grito ficou preso dentro dele, aumentando a pressão no seu peito, um grito silencioso que era o som da sua alma a despedaçar-se.
O mar à sua volta pareceu sussurrar em uníssono, num coro de milhões de vozes de desespero que ecoavam o seu próprio:
— Suca… suca…
E Napopodopopo percebeu, com um terror gelado, que a voz que mais o cortava já não era dela. Era a sua própria voz, interior, que agora repetia as palavras dela como uma verdade incontestável. Ele tinha-se tornado o seu próprio carrasco, e a sua mente, a cela da sua tortura.
A escuridão do mar parecia convidá-lo, prometendo um silêncio final. E pela primeira vez, o convite não pareceu assustador. Pareceu uma libertação.
